Dr. Ariosto Ribeiro Psiquiatra · BH
Altas Habilidades · 2 min de leitura

Altas habilidades em adultos: quando ninguém percebeu na escola

Superdotação não é doença, e costuma ser discutida só na infância. Mas muitos adultos chegam ao consultório sem saber que têm altas habilidades — e sem entender o que vem junto.

Livro de Fernando Pessoa diante do rosto do Dr. Ariosto Ribeiro, em preto e branco

Quando se fala em altas habilidades ou superdotação, a imagem que vem à mente costuma ser a de uma criança precoce, que aprendeu a ler sozinha e pula séries na escola. O tema é discutido quase sempre na infância. E é justamente por isso que tantos adultos chegam ao consultório sem nunca terem sido identificados.

Primeiro, o que não é

Altas habilidades não é uma doença nem um transtorno psiquiátrico. É um perfil de funcionamento: capacidade acima da média em uma ou mais áreas, muitas vezes acompanhada de um jeito próprio de pensar e de sentir. Não precisa ser "tratada".

Então por que falar disso num blog de psiquiatria? Porque o que costuma trazer essas pessoas ao consultório não é a superdotação em si. É o que vem junto.

O que costuma aparecer

Os relatos se repetem com uma frequência que chama atenção:

  • pensamento rápido, associativo, e impaciência com explicações lentas;
  • intensidade emocional — reações fortes, sensibilidade à injustiça, dificuldade de deixar passar;
  • tédio persistente com tarefas rotineiras, mesmo em trabalhos considerados bons;
  • perfeccionismo e autocobrança que paralisam em vez de impulsionar;
  • sensação antiga de ser "demais", diferente, de não pertencer.

Essa intensidade, que vale para as ideias, vale também para as emoções. E ela pode aumentar a vulnerabilidade a quadros de ansiedade e depressão — sobretudo em quem nunca entendeu por que funciona diferente.

Quando uma coisa esconde a outra

Um ponto pouco conhecido: altas habilidades podem coexistir com TDAH ou com o espectro autista. É a chamada dupla excepcionalidade. Nesses casos, a capacidade intelectual compensa as dificuldades por anos — a pessoa tira boas notas apesar da desatenção, adapta-se socialmente apesar do autismo. E as dificuldades, por sua vez, podem esconder a capacidade.

O resultado é alguém que não se encaixa em nenhuma explicação pronta. "Inteligente demais para ter TDAH." "Sociável demais para ser autista." E, ao mesmo tempo, sem entender por que tudo custa tanto.

Como se chega à resposta

A identificação combina duas frentes. A avaliação clínica reconstrói a história de vida, a forma de pensar e de sentir, e investiga o que pode estar coexistindo. A avaliação neuropsicológica, feita por psicólogo, inclui os testes padronizados. Uma não substitui a outra — e nenhum teste online substitui as duas.

O que muda depois

Para muitos adultos, a identificação reorganiza a própria história. Aquela sensação de inadequação ganha nome. A autocobrança pode ser vista com outros olhos. E, quando há sofrimento associado, o tratamento finalmente olha para a pessoa inteira, não só para o sintoma que a trouxe.

Não se trata de colocar um rótulo. Trata-se de entender, com precisão, como aquela mente funciona — para que ela possa trabalhar a favor da pessoa, e não contra ela.

Precisa conversar sobre isso?

Este texto é informativo e não substitui avaliação médica individual. Se o assunto é o seu caso, veja também a página sobre Altas Habilidades.

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