Dr. Ariosto Ribeiro Psiquiatra · BH
Leituras e filmes · 5 min de leitura

Carrie, a Estranha (Quando a Rejeição se Torna Insuportável)

O livro Carrie, a estranha, é uma história complexa sobre bullying, rejeição e fanatismo religioso. A obra permite discussões profundas em Psiquiatria, e como viver desprovido de amor, acolhimento e empatia pode levar a consequências catastróficas.

Reflexão Psiquiátrica da Semana

Carrie, a estranha Quando a rejeição se torna insuportável

O Livro Carrie, a estranha, foi o primeiro romance do Mestre do Horror Stephen King, e o livro que o levou ao Hall da Fama, e fonte para várias adaptações cinematográficas. Em outubro de 2026, ganhou uma adaptação para série de TV pelo diretor Mike Flanagan.

O livro traz o retrato das maiores dores humanas: a rejeição, o isolamento. Carrie White é uma jovem tímida, doce, ingênua, privada das experiências do mundo pela mãe, uma fervorosa religiosa adoecida, incutindo na garota medos e receios descabidos. O primeiro capítulo acontece no vestiário da escola, e Carrie entra à beira de um ataque de pânico quando vê sangue escorrendo pelas suas pernas. Ela não sabia, ninguém jamais a ensinou, tamanho o isolamento que a mãe perpetrava, mas era sua primeira menstruação. Às garotas veem sua reação e passam a apontar, rir e zombar de Carrie em conjunto. Uma ocasião humilhante e traumática para a protagonista.

Não era a primeira vez. Carrie não tinha amigos, era ameaçada e aterrorizada pela mãe dia após dia, usava roupas longas, típicas de mulheres de meia idade religiosas, e a ausência de traquejo social prontamente a tornaram a vítima ideal para o Bullying na escola. Ofensas, pichações zombeteiras, risadas pelos corredores é o dia a dia de Carrie. Qual o limite para o ser humano, até onde se consegue suportar tanta dor, tanta rejeição, tanta falta de amor, sem a mente colapsar?

Com o advento da menstruação, porém, surge o inesperado: o desenvolvimento da telecinese. Após o evento no vestiário, ela percebe ser capaz de mover objetos e manipular o ambiente com o poder da mente. É sabido que, há milênios, a força feminina é reverenciada, até temida. Tome por exemplo os rituais para as deusas da fecundidade e do amor, presente em culturas várias. No Caibalion, acredita-se que o mundo é governado por duas forças: o masculino e o feminino. O masculino representaria a ordem, o conservadorismo, a manutenção; enquanto o feminino representa o desconhecido, o caos, a novidade. Não há um melhor do que o outro. O que seria da vida, se totalmente em ordem, sem espaço para o novo? Se mergulhássemos no caos absoluto, como poderia haver crescimento? O caos é uma alusão ao útero feminino, o desconhecido criativo de onde surgem os filhos, a criação de vida nova, que sempre vem acompanhada de expectativas e receios. É por isso que as mulheres são temidas e reverenciadas em vários rituais. A telecinese surge, assim, como uma metáfora para o desabrochar da força feminina.

Para Carrie, a humilhação final é a pior. Algumas garotas tramam para que o garoto mais popular da Escola, Tommy ross, a convide para o baile. Ela aceita, mesmo contra as pragas da mãe, resistente a qualquer tentativa da filha de viver uma vida normal de adolescente, sem saber que era tudo um engodo. Ela escolhe um belo vestido, pela primeira vez ela se sente escolhida, vista, bonita. No baile, as pessoas, que antes zombavam-lhe, mostrararam-se receptivas, amigáveis e gentis. Por breves instantes, ela soube o que era pertencer, o que era fazer parte. Ela soube o que era ser cortejada, ser vista, se permitiu olhar para Tommy com olhos de paixão, imaginar o que seria viver um romance, algo inimaginável na sua vida. Ela não era mais estranha, ela era normal, e sua vida nunca fora tão feliz. Como ela perdera por não ter vivido as simples, mas únicas, experiências da juventude? Ela finalmente se encontrara naqueles breves momentos do baile. Tal como alguém que vivia na escuridão, ela conhecera a luz, e jamais iria querer retornar para a caverna.

Mas não durou. Ela é escolhida como a Rainha do Baile pela escola. Quando sobe ao palco para receber a homenagem, o pior acontece. Um balde com sangue de porco, escondido no teto, é vertido sobre Carrie, e o que era o seu grande momento tornou-se o seu pior pesadelo. No palco, em frente a toda à escola, todos rindo da peça pregada, o corpo e o vestido cobertos de sangue, ela enfrenta a pior dor possível. Ela conhecera, pela primeira vez, a felicidade genuína, apenas para que esta fosse roubada, da pior forma possível. A escuridão, uma vez que se conhece a luz, se tornou ainda mais opressora. E aí, ela colapsa. Em um ódio sobrehumano, ela usa a telecinese para assassinar todos os alunos no baile, deixando um rastro de destruição e morte na cidade. A figura da garota imersa em sangue, matando todos à sua frente, tornou-se uma figura emblemática do cinema, e um arquétipo para todos que já sofreram rejeição ou bullying. Quem, após ser extremamente zombado, não cultivou uma fantasia secreta de fazer o que Carrie fizera?

Carrie era uma vilã, ou uma vítima das circunstâncias? Sua vida poderia ter sido diferente se houvesse mais amor, empatia e compreensão? Ela matou, asassinou sem piedade, e ainda assim as pessoas enxergam-na como uma heroína, uma figura trágica. Porque, no fundo, esse não é um livro de terror. É um romance altamente triste, uma tragédia anunciada sobre uma garota que não conheceu amor, amizade, privada da vida, sufocada pela religião, que teve um único momento de alegria destruído da forma mais vil possível. Sugiro a leitura desse clássico, um exercício de empatia, e uma viagem por uma mente atormentada, mas real. Quantas Carries existem hoje, andando pelos corredores de escolas, empresas e famílias, sem poderes para mover objetos, mas carregando dentro de si a mesma dor, invisíveis?

Aristo Ribeiro Medico Psiquiatra CRM (MG): 82927/ RQE: 57672

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Este texto é informativo e não substitui avaliação médica individual.

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