Dr. Ariosto Ribeiro Psiquiatra · BH
Leituras e filmes · 4 min de leitura

A Mente Humana como uma Grande Cidade

Reflexão Psiquiátrica da Semana

A mente humana como uma Grande Cidade

“Esta cidade de Istambul, sem igual, sem preço, por uma só de suas pedras dar-se-ia toda a Pérsia. Joia inteiriça colocada entre dois mares, digna de ser pesada contra o Sol que ilumina o mundo. É mina de dádivas, cuja gema é a fortuna; é Jardim do Éden, cujas rosas são glória e grandeza. Estará o mais alto Paraíso acima dela ou abaixo?”

Podemos traçar um paralelo entre a abundante, multifacetada e complexa mente humana e a história de uma Cidade Imperial. Sim, tendemos a ver essas grandes metrópoles, com suas construções imponentes, espécimes de rara arquitetura e grandiosidade ímpar, construídas sobre pedras milenares com o suor e o sangue de milhares de escravos, como estátuas resistentes ao tempo, baluartes eternos, imunes às mudanças do tempo. Ledo engano.

Tomemos, como exemplo, a eterna cidade de Constantinopla. Sua história reflete como mesmo a mais sólida e concreta das cidades é incapaz de resistir à força do tempo. Sua origem está com o imperador Constantino. Ele foi o primeiro rei romano cristão, convertido durante a Batalha da Ponte Mílvia, onde, antes do conflito, vira a cruz divina a emergir entre as nuvens, iluminada pelos raios brilhantes do sol. Tomado por fervor religioso, interpretando-a como um sinal de boa sorte, ele marchou resoluto com seu exército, levando-os à vitória esmagadora. Fora o responsável pela instalação do Cristianismo como religião oficial de Roma. Em meio à expansão do Império, o centro econômico desviou-se para o leste, com a intensificação do comércio no Mediterrâneo oriental. Por essa razão, Constantino decidiu criar uma nova cidade para se tornar a capital do Império. Ele escolhera a cidade grega de Bizâncio e começou a fundar o que seria a futura capital romana: Constantinopla.

A cidade desabrochou para se tornar a grande joia do Oriente, berço de fantasias, lar de riquezas e belezas variadas, o centro do mundo, viva no imaginário de peregrinos e viajantes, com as ruas tomadas por uma efusão de pessoas de todos os cantos do mundo, o comércio impulsionado por mercadorias, tecidos e produtos jamais vistos, em uma balbúrdia de línguas e etnias que tornavam tudo possível. Os imperadores da cidade vieram um após o outro, e nenhum foi mais importante do que Justiniano. Ele fora o responsável por transformar a cidade, já incomparável, em algo próximo do Paraíso. Durante seu reinado, construíra a Catedral de Santa Sofia, cuja beleza suntuosa e transcendental arrebata-nos até hoje; consolidara as leis do Império e organizara toda a região com uma metodologia de dar inveja às grandes metrópoles atuais.

Mas o tempo, inexorável, tudo transforma. Corrupção, revoltas e decisões políticas catastróficas minaram a força da cidade, e ela passou a ser atacada pelas forças turco-otomanas, bradando a palavra de Alá e imbuídas de fervor islâmico. Não à toa, no alvorecer do segundo milênio, o imperador Aleixo convocara a Igreja Católica para ajudá-la na luta contra o Islã, dando origem ao movimento das Cruzadas, lembrado até hoje. Em 1453, o imperador turco Mehmed II invadiu a cidade, e aquela que fora berço da cristandade e da beleza greco-clássica foi destruída ,e passara a ser governada pelos turcos. A cultura se transformou, igrejas foram substituídas por mesquitas, o afluxo de peregrinos europeus reduziu-se, e a cidade tornou-se praticamente outra. Desse momento em diante, passaria a ser chamada Istambul. Vários outros impérios lutaram pelo controle da Cidade Sagrada, desde o Império Russo até os mongóis.

Hoje, Istambul passou por uma nova mudança cultural. Hoje vive uma democracia; os prédios gregos e as mesquitas árabes vivem em harmonia, lado a lado com prédios comerciais, carros nas ruas e construções modernas, novamente abraçando seu lado multicultural, trazendo em si cicatrizes de guerras há muito travadas, mas também memórias de risos e festivais.

Assim é a nossa mente. O tempo tudo muda. Só há uma certeza na vida: a mudança. E, com ela, certezas são postas à prova, sentimentos se transformam, ideias e valores há muito cultivados são repensados. E, mais importante, nós amadurecemos. Toda experiência vivida, cada pessoa que nós conhecemos, cada assunto que aprendemos funciona como a erosão do tempo em uma cidade, mudando sua arquitetura, sua ambientação, transformando-a em algo novo, desconhecido, fascinante até.

A mente humana é maravilhosa justamente por ser complexa, maleável, contraditória e, acima de tudo, bela. Istambul é a mistura do Ocidente com o Oriente, do cristão com o islâmico, do caos com a ordem. E não seria justamente isso que torna essa cidade ao lado do Bósforo um dos maiores patrimônios da humanidade?

Abrace suas contradições. Ame seus conflitos mal resolvidos. Apaixone-se pelos seus sonhos e pelos seus rancores. Seja grato às suas perdas e amores fracassados, festeje suas vitórias, saiba que tudo que é vivido te molda, todos os dias ,a cada segundo. Cada um desses pensamentos, cada uma dessas emoções, constrói algo em sua mente, e ela só está sendo construída porque, no fundo, você está se permitindo viver, experienciar a vida e arcar com todo o preço que isso traz.

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Este texto é informativo e não substitui avaliação médica individual.

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