Dr. Ariosto Ribeiro Psiquiatra · BH
Saúde mental · 3 min de leitura

Por quanto tempo vou precisar tomar remédio?

É a pergunta que mais escuto antes da primeira consulta. A resposta honesta começa por outra pergunta: o que exatamente estamos tratando?

Mão do Dr. Ariosto Ribeiro sobre o notebook, à mesa do consultório

É a pergunta que mais escuto antes da primeira consulta — às vezes antes mesmo de a pessoa dizer o que a trouxe. E ela faz todo sentido. Quem procura um psiquiatra costuma carregar duas preocupações ao mesmo tempo: melhorar, e não ficar preso a um remédio pelo resto da vida.

A resposta honesta não cabe em um número. Mas ela existe, e pode ser dada com bastante clareza desde o início.

Depende do que estamos tratando

O tempo de tratamento não é uma decisão genérica sobre "remédio psiquiátrico". Ele depende do diagnóstico, da história do quadro e de como a pessoa responde.

Um primeiro episódio depressivo, bem identificado e bem tratado, tem um horizonte diferente de um quadro que já voltou várias vezes. Um transtorno de ansiedade tem um curso diferente de um transtorno bipolar. É por isso que a pergunta "por quanto tempo?" só pode ser respondida depois de outra: o que exatamente estamos tratando?

Quando o diagnóstico está impreciso, o tempo de tratamento também fica. Muita gente que sente que "toma remédio há anos sem sair do lugar" não está diante de um tratamento longo demais — está diante de um diagnóstico que precisa ser revisto.

Gosto de trazer objetividade para essa conversa, porque a psiquiatria já é criticada, com alguma razão, por parecer subjetiva demais. Por isso, desde a primeira consulta, procuro deixar claro:

  • qual é o diagnóstico e por que ele foi feito;
  • qual é o tempo aproximado de tratamento esperado para aquele quadro;
  • o que esperar em cada fase, inclusive os imprevistos possíveis;
  • como vamos saber que chegou a hora de reduzir ou encerrar.

Saber para onde se está indo muda a relação com o tratamento. Deixa de ser um remédio indefinido e passa a ser um plano.

Tratamento psiquiátrico não é, necessariamente, para sempre

Esse é um dos mitos que mais me incomodam. Há evidência consistente de que a alta é possível em muitos quadros. Ela não acontece por decisão isolada de parar — acontece quando o quadro está estável há tempo suficiente, quando a pessoa entende os próprios sinais de alerta e quando a retirada é feita de forma planejada.

Parar por conta própria, sem acompanhamento, é o caminho mais comum para uma recaída — e para a conclusão equivocada de que "sem remédio eu não consigo".

Vale ressaltar que alguns transtornos, como Transtorno Bipolar e Esquizofrenia, exigem tratamento vitalício, e a retirada da medicação pode ser bastante perigosa e não recomendada. Quadros outros, como TDAH e Transtornos Ansiosos, se forem tratados, aliado ao fato do paciente aprender ferramentas e estratégias para lidar com suas questões.

A medicação é uma parte, não o todo

Medicação bem indicada muda vidas; eu não a trato como detalhe. Mas ela raramente é a única coisa em jogo. Rotina de sono, uso de álcool, relações, trabalho, a forma como a pessoa lê a própria história — tudo isso interfere no tempo de tratamento, às vezes mais que a dose.

Por isso a pergunta "por quanto tempo vou tomar remédio?" merece ser feita logo na primeira consulta. Não para receber uma data, mas um plano.

Precisa conversar sobre isso?

Este texto é informativo e não substitui avaliação médica individual.

Agendar consulta

Receber os próximos textos

Escrevo sobre o que costuma gerar dúvida antes da primeira consulta. Sem frequência fixa, sem propaganda — e você sai da lista quando quiser, em um clique.