Sobre a Solidão
Solidão não é simplesmente estar sozinho, mas sentir-se desconectado. Uma reflexão sobre vínculos, solitude e a importância de descobrir aquilo que nos conecta ao mundo e dá sentido à existência.
Reflexão Psiquiátrica da Semana
Sobre a Solidão
Estar sozinho configura-se entre os maiores temores do homem. Temos o hábito de nos unir em grupos desde o nascer da humanidade. O ser humano é o único animal que aspira, que anseia pelo contato com os outros e que faz da sede pela comunicação sua característica mais marcante.
Já parou para pensar por que, de todos os mamíferos, o cérebro humano é o maior e mais complexo? Não é pelo intelecto mais elevado, não é pela capacidade de fazer cálculos elaborados, nem por compor versos. Nosso cérebro é o mais complexo porque somos a espécie que mais se comunica. Pode não parecer, mas dialogar com outra pessoa, debater, trocar ideias, absorver outros pontos de vista e reformular as próprias crenças com base nas falas de outrem, tudo isso leva a uma poderosa reconfiguração sináptica, estimula o cérebro e, ao longo de milênios, deu ao ser humano sua maior arma: a mente.
Trabalhando em sociedade, o homem construiu as Pirâmides de Gizé, fundou impérios, conquistou a Lua, criou tecnologias jamais imaginadas e revolucionou todo o planeta. Conversar com pessoas inteligentes e inspiradoras pode fazer mais maravilhas por você do que a leitura de um livro complexo ou passar horas estudando um assunto de forma passiva.
Por isso, a medicina entende hoje as conexões sociais como um pilar essencial da saúde. Não pode existir saúde sem uma rede que ofereça suporte, apoio emocional, amparo e espaço para o desenvolvimento. Não há tratamento completo em Psiquiatria sem abordar essa esfera tão importante da vida. Para além da saúde mental, estudos evidenciam que pessoas solitárias apresentam maiores índices de infarto, obesidade e acidentes vasculares.
Os solitários, ao longo da história, tendem a serem vistos com desconfiança, até com certo temor, ou com pena. A figura do eremita encapuzado, perambulando pelo deserto; a do mascate, nas vilas medievais, cantando sua música pelas estradas sem jamais criar vínculos; a de um missionário, com fé inabalável, levando adiante a palavra de Deus ao longo do continente; ou simplesmente a do homem solitário, comum, vivendo a vida ordinária, mas sem cultivar amizades ou relacionamentos. Essas figuras, por mais sozinhas que pareçam, nem sempre parecem tristes ou deprimidas. Como alguns suportam tão bem a solitude e outros não?
Tomemos o reino animal como exemplo. Veja a águia, rainha dos céus, planando solitária sobre as nuvens, majestosa e imperial. Abaixo dela, as galinhas, simples, plebeias, andando em bando, facilmente presas de predadores como serpentes ou raposas. Olhe os lobos, poderosos quando em matilha mas, sozinhos, tornam-se desprotegidos e vulneráveis. Cada um tem a sua forma de reagir à solidão.
Porque criar conexões, no fundo, não se trata de estar rodeado de pessoas. Olhe as pessoas neurodivergentes, por exemplo, seja com Transtorno do Espectro Autista, seja com Altas Habilidades/Superdotação. Elas dificilmente conseguirão encontrar outros com quem possam manter uma conversa realmente recíproca e intensa. Muitos podem viver rodeados de pessoas, mas jamais se conectar de fato, o que pode causar ainda mais sofrimento e solidão.
Esse é o grande desafio: criar conexões verdadeiras, íntimas, nas quais possamos ser nós mesmos. Por isso, quando cuidamos de pessoas que lutam contra o espectro da solidão, não bastam os conselhos óbvios: saia mais, baixe aplicativos, frequente locais de que você gosta, converse mais com desconhecidos. Para realmente nos conectarmos, é preciso um mergulho profundo em nós mesmos, conhecer nossos valores e, armados desse conhecimento, buscar os ambientes que fazem nosso coração vibrar e a mente fervilhar.
E aí vem o grande ponto: o conceito de Conectividade.
Estar conectado é muito mais do que conversar com mais pessoas. Conexões verdadeiras podem se estabelecer com a Natureza, com a Arte, com a Família, com o Universo, com o aprendizado, com o Prazer pelo Aprendizado, com os Animais ou com a ideia de ajudar a humanidade. Sem um senso de propósito, toda interação será somente isso: uma interação.
Conheça seus valores mais intrínsecos, e as portas se abrirão.
Para alguns, a comunhão e as conversas descontraídas, regadas a álcool, nos finais de semana, simbolizam sua conectividade; para o missionário, mesmo sozinho, sua conexão com a espiritualidade o preenche tanto que outras interações se tornam desnecessárias; o solitário que volta sem ninguém para seu apartamento pode ter a vida interna recheada de canções, poesias e artes, e isso cria conectividade. Para alguém neurodivergente, encontrar uma tribo com pessoas semelhantes, com raciocínios e formas de pensar tão coesos a ponto de permitir um diálogo real, pode fornecer um senso de pertencimento indescritível.
Por isso, alguns conceitos são importantes. A solidão é uma experiência subjetiva e dolorosa de desconexão; o isolamento social é um estado objetivo e quantitativo, que diz respeito à quantidade de interações de um indivíduo com os outros; já a solitude seria um estado voluntário e positivo de estar sozinho, comum naqueles cuja conectividade se expande para além das pessoas.
Quer reduzir seu senso de solidão? Descubra o que o move.
Ariosto Ribeiro
Médico Psiquiatra
CRM (MG): 82927/RQE: 57672
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Este texto é informativo e não substitui avaliação médica individual.
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