Verity: Quando o amor vira Doença
A obra de Coolen Hoover retrata uma mulher adoecida, Verity, cujo casamento com Jeremy mostra uma mente adoecidade, obcecada, que de tudo fará para não ser abandonada. O estudo dessa personagem traz possibilidades para um olhar psiquiátrico, e o que podemos aprender dessa leitura.
Reflexão Psiquiátrica da Semana
Verity: Quando o amor vira doença.
Observação: o texto abaixo contém spoilers
O livro de Coolen Hoover, Verity, que conta com uma adaptação cinematográfica com Anne Hathaway , é um livro perturbador sobre obsessão, amor, ódio e manipulação. O livro é um romance simples, com pouca complexidade literária e vocabulário simples, mas traz capítulos desconcertantes sobre a psiquê de uma mulher complexa, capaz de ir ao inferno em sua paixão aterradora e doentia pelo esposo, Jeremy.
A história bebe da Mitologia grega, principalmente nas fábulas em torno de Medeia, uma das figuras mais polêmicas, odiadas e fascinantes do mundo grego antigo. Era a princesa da Ilha de Cólquida, e se apaixona pelo herói Jasão, quando ele passa pela ilha junto dos seus argonautas, na aventura em busca do Velocino de Ouro. Ela o ajuda em sua missão, durante a qual se apaixonam perdidamente. Jasão parte da ilha em seu navio, e Medeia decide com ele partir. Consciente de que o pai mandaria o exército naval de Cólquida atrás deles, ela leva consigo como refém o próprio irmão. Aí, ela mostra seu lado perverso, assassinando-o e cortando-o em pedaços para atrasar a perseguição de seu pai. Ela e Jasão se casam, e o amor dos dois não tarda a se tornar um campo de batalha, e o amor ceder ao ódio e à fúria. Jasão, anos depois, já sem a glória da batalha coroando-o, torna-se um mortal comum, velho, cujas noites são dedicadas à miséria do álcool, jogos de aposta, e envolvimento com prostitutas, traindo-a diversas vezes. Medeia, em um ato cruel, monstruoso para além da imaginação, decide se vingar de Jasão assassinado os próprios filhos, e logo foge de volta para a Grécia. Jasão, solitário, uma sombra da grandiosidade de outrora, vendo os filhos amados mortos por aquela que deveria protegê-los, entra em desespero e se suicida.
A personagem Verity traz consigo o arquétipo de Medeia. Ela é uma escritora famosa, cujos livros tornaram-se best sellers mundiais, com a particularidade de serem escritos pelo ponto de vista do vilão. Em uma festa, ela conhece o homem que viria a se tornar seu marido. Jeremy é tudo que uma mulher sonha em um homem: elegante, bonito, cavalheiro, seguro. Eles se entregam aos braços um do outro, e daí em diante jamais se separaram. Verity, uma mulher astuta, intensa, passa a pensar e desejar Jeremy com uma ânsia jamais experimentada, todos os momentos ao lado dele eram curtos para o tamanho da sua luxúria e obsessão. Logo, eles se casam, e vivem uma vida abastada e luxuosa, devido aos lançamentos literários de Verity. Ela só pensava em Jeremy, tudo fazia por ele, e todo sinal de distanciamento ou abandono já bastava para alarmá-la.
Tudo começa a ruir com o anúncio da gravidez. Quando surpreendida com a notícia de estar esperando gêmeas, Jeremy fica exultante, abraça-a, e afirma como está feliz por finalmente estar iniciando uma família com a mulher amada. Mas, para Verity, era o início do seu pesadelo. Jeremy só pensava nas garotas, em tornar a gravidez o mais leve possivel, em cuidar das crianças, e Verity passa a sentir preterida, esquecida. Pouco a pouco, isso desperta sentimentos de pânico, de terror profundo de Jeremy trocar o amor por ela pelo amor pelas meninas. O terror de Verity não demora em transformar-se em ódio, repulsa até, pelas filhas. ''Elas são as culpadas, elas roubaram a atenção de Jeremy, por causa delas, não podemos ficar juntos como antes''.
O ódio torna-se cada dia mais profundo, enraizado, fazendo Verity cometer atos monstruosos. No livro, há descrições de cenas de tentativas de aborto com um cabide; capítulos de Verity torturando e tentando sufocas as filhas ainda bebês e, em certo momento, ela chega a matá-las. Ela faria de tudo, realmente de tudo, para não perder Jeremy, nem mesmo para as proprias filhas. A situação escalona mais e mais. Quando Jeremy está prestes a descobrir tudo, Verity faz o impensável: forja um acidente de carro propositadamente e, logo depois, ela finge estar paralítica e catatônica, pois assim Jeremy sempre estaria cuidando dela.
Os comportamentos acima são desumanos, monstruosos e, em uma visão superficial, podem ser enquadrados dentro do espectro da psicopatia. Mas basta uma visão mais aprofundada para ver que Verity se enquadra em outro diagnóstico. Lembrando, os personagens são fictícios, e o foco não é dar diagnósticos, mas usar a obra como forma de entender e explorar a Psiquiatria.
A personagem possui algumas características do Transtorno de Personalidade Borderline. Esse transtorno é caracterizado por medo intenso do abandono, seja real ou imaginário, e o paciente fará tudo, realmente tudo ao seu alcançe, para evitar esse temido cenário. Na vigência de rompimentos, sejam eles em relações afetivas, familiares ou de amizade, há intensa desregulação emocional, às vezes tão intensas que podem precipitar até crises. Os pacientes são acompanhados por uma sensação de vazio, de não saberem quem são, de pensamentos ruins, que os tornam dependentes do conforto que o outro pode trazer. O transtorno também vem acompanhado de alta impulsividade, risco de suicídio, auto-mutilação e tendência a compulsões. Na obra, tudo que Verity faz, por pior que seja, é com o intuito de evitar o abandono de Jeremy, nem que para isso precise sacrificar as próprias filhas. Isso é o oposto dos psicopatas, cujas atitudes atrozes são causadas pela total indiferença para com a dor do outro, e visando algum benefício financeiro ou material.
Evidentemente, pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline não são “Veritys”, tampouco são violentas ou perigosas por definição. A literatura trabalha com extremos. Mas esses extremos podem nos ajudar a compreender algo profundamente humano: o quanto o medo de perder alguém pode deformar a maneira como algumas pessoas amam. O amor saudável permite que o outro exista separado de nós. Quando amar significa possuir, vigiar, controlar ou destruir qualquer coisa que ameace o vínculo, talvez já não estejamos falando apenas de amor, mas do terror de ficar sozinho.
Você se identifica com os sintomas acima, ou conhece alguém com os sintomas acima? É um transtorno grave, mas o acompanhamento psicoterápico adequado pode fazer o paciente aprender estratégias e ferramentas para lidar com suas inseguranças e com a desregulação emocional.
Ariosto Ribeiro Médico Psiquiatra CRM (MG): 82927/RQE: 57672
Precisa conversar sobre isso?
Este texto é informativo e não substitui avaliação médica individual.
Agendar consultaReceber os próximos textos
Escrevo sobre o que costuma gerar dúvida antes da primeira consulta. Sem frequência fixa, sem propaganda — e você sai da lista quando quiser, em um clique.