Dr. Ariosto Ribeiro Psiquiatra · BH
Saúde mental · 3 min de leitura

Quando a ciência vira uma religião

As pessoas têm necessidade gigantesca de acreditar em algo. O que muda é somente para onde a fé aponta.

Dr. Ariosto Ribeiro olhando para o alto, pensativo, em preto e branco

As pessoas têm necessidade gigantesca de acreditar em algo. Buscamos salvadores, messias, promessas fantásticas de uma vida melhor, explicações mirabolantes para o sentido da vida, ao qual nos agarramos como um homem afogado se agarra a uma bóia. Cada tribo, cada cidade, desde a aurora da humanidade, cultua uma divindade, tem um sistema de religião, indicando que a fé é algo inato ao ser humano, incrustado no DNA, talvez até uma necessidade básica. O que muda é somente para onde a fé aponta. Alguns, se ajoelham perante a cruz sagrada de Jesus Cristo, outros se inclinam na direção da Meca Islâmica; povos gregos adoravam e temiam o panteão dos Deuses do Olimpo; e alguns jogam oferendas ao ao mar aguardando o agrado de Iemanjá. Isso não desapareceu com o nascer da ciência e do pensamento racional. Por mais que o ateísmo esteja em ascenção, e depositemos a fé cada vez menos em deidades, ainda podemos colocá-la em outros aspectos da vida. Existe o culto a seitas, gurus, charlatões ou indivíduos com oratória ímpar. E, sim, a mesma fé que, antes, era atribuída a deuses; também pode agora ser direcionada a ciência, talvez a grande religião secularista da atualidade, e muitos nem percebem.

Veja como os grandes defensores do método científico abordam-no. Eles possuem uma crença inabalável no método, a certeza indelével de serem possuidores de conhecimentos inacessíveis aos ditos ignorantes católicos da Idade Média, um ar de ofensa peremptória quando alguém questiona seus padrões, certos da inequívoca e suposta infabilidade desta; como repetem os mesmos jargões (''temos evidência científica'', ''isso é verdade porque foram feitos estudos sistemáticos''); a existência de gurus e líderes, que são seguidos e ovacionados como antigos profetas da antiguidade. Eles são vistos como salvadores, cujo conhecimento traria descobertas e maravilhas capazes de curar nossas dores e deixar nossa vida abundante. Olhe as multidões que se reunem em torno de figuras como Yuval Harari ou Joe Dispenza.

E não só na ciência. Olhe as redes sociais. Pululam posts e reels sobre empreendedorismo e sucesso financeiro. Coachs como Paulo Vieira e Thiago Nigro arrebatam legiões de fãs. Eles se reunem em espaços de alto valor, como Alphaville, e se juntam para falar de abundância e prosperidade, usando vestimentos características, com seus blazer justos, calças curtas, cintos com logos chamativas e sapatos lustrados; ficando eufóricos a cada palestra, a cada promessa vendida, e todos saem de tais eventos comportando-se da mesma maneira, repetindo as mesmas frases sobre propósito e grandeza, como membros de uma seita. São as seitas modernas, tão lunáticas quanto as antigas.

É muito fácil reconhecer esse padrão, presente tanto nas seitas antigas quanto nas atuais. Quais são eles? comportamento de manada, com pessoas agindo como um só organismo, uma turba enfurecida com vida própria; líderes com promessas grandiosas, mas palavras vazias e destituídas de concretude; o uso de estímulos e palavras enfáticas para sensibilizar e mobilizar a massa de seguidores; a rejeição a quaisquer argumentos de objeção, que são recebidos com raiva e intolerância; comportamentos e rituais próprios do movimento, tornando possível identificá-los a distância. Reconhece algum?

Como dito, a sede por acreditar em algo é essencialmente humano. Isso precisa, então, ser trabalhado em qualquer tratamento que envolva o aprimoramento da saúde mental. O homem tem sede do transcendental, e se essa sede não for saciada, invariavelmente virá o vazio, a frustração. Isso não siginifica que você deva buscar isso em Igrejas, no culto ou qualquer centro religioso. O ponto é a necessidade de crer em algo, mas o que seria esse algo, é o âmago da questao. Pois é totalmente variável e individualizado, e ressoa com os valores de cada um. Pode ser na própria espiritualidade, na família, no trabalho, na ambição, na natureza ou mesmo no próprio amor. E, se isso não for buscado, discutido, o risco é viver uma vida desprovida de significado. Não é achismo, é um dado evidenciado pela história e pela ciência.

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Este texto é informativo e não substitui avaliação médica individual.

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